3  Termoquímica e Estequiometria

O MUNDO TE CHAMA

Quando um combustível queima, libera calor. Quando colocamos gelo em uma bebida, o ambiente esfria. Quando um comprimido efervescente reage, percebemos transformação e energia ao mesmo tempo.

Quanto de matéria reage … e quanta energia está escondida nessa transformação ?

Neste capítulo, vamos explorar dois ramos fundamentais da Química: a Estequiometria, que permite quantificar reagentes e produtos, e a Termoquímica, que revela a energia envolvida nas transformações. Nos livros didáticos, esses temas costumam aparecer separados. Mas o mundo não separa quantidade de energia. Na prática, toda reação química envolve simultaneamente a quantidade de matéria transformada e a energia trocada com o ambiente. Ou seja, cada reação envolve o quanto reage e quanta energia está envolvida no processo

Depois de explorar, você consegue:

- interpretar proporções em reações químicas;
- calcular quantidades de reagentes e produtos;
- compreender reações exotérmicas e endotérmicas;
- relacionar quantidade de matéria com energia liberada ou absorvida;
- explorar os temas do capítulo com auxílio de visualizações interativas
Figura 3.1: A transformação da matéria é sempre acompanhada de um fluxo de energia. Garatuja do experimento de Joule.

MEXA ANTES DE ENTENTER

Antes de qualquer fórmula, experimente o objeto interativo de JSPlotly que segue.

Figura 3.2: Matéria e energia evoluem juntas. Clique com o botão direito neste LINK e abra em nova aba.

Esse script mostra, de forma simples, como uma reação química pode ser analisada por dois lados ao mesmo tempo: a estequiometria (quanto produto se forma) e a termoquímica (quanta energia é liberada ou absorvida). Do mesmo modo, você pode variar a quantidade de reagente e observar quanto de produto é formado e quanta energia é liberada.

Agite antes de usar

No início do código, altere o trecho abaixo para outros valores, e vá clicando no botão add entre esses para observar o resultado.

const A_inicial = 5;

Experimente valores como 2, 8, e 10. E observe que, quando se aumenta a quantidade de (A), mais produto (B) é formado e mais energia total participa da reação. A reação usada no script é:

\[ A \rightarrow 2B \tag{3.1}\]

Isso significa que:

\[ 1 \text{ mol de } A \rightarrow 2 \text{ mols de } B \tag{3.2}\]

Portanto, a quantidade de produto formado depende da proporção entre os coeficientes da reação:

\[ B = \frac{coef_B}{coef_A} \cdot A \tag{3.3}\]

Agora altere o trecho abaixo, experimentando valores de -20, -100, e 50.

const deltaH = -50 ; kJ/mol

Essa energia é denominada entalpia, com o delta representando sua variação global na reação. Nos livros essa quantidade é normalmente representada por \(\Delta\)H. Perceba que, embora pareça estranho, valores negativos de “deltaH” dão uma inclinação positiva para a reta de energia, enquanto que valores positivos resultam em inclinação negativa. Ou seja, “-deltaH” indica que a energia aumenta com (A) enquanto que “+deltaH” indica que essa energia reduz.

De fato, quando:

\(\Delta\)H > 0; a reação absorve energia (endotérmica); \(\Delta\)H < 0; a reação libera energia (exotérmica).

No script essa energia total é calculada por:

\[ E = n \cdot \Delta H \tag{3.4}\]

Onde: n é a quantidade de reagente (mol) e \(\Delta\)H a variação de entalpia da reação (em kJ/mol). Assim, é possível traçar alguns cenários interessantes com o app:

  1. Mais reagente. Aumente A_inicial e observe que a quantidade de produto aumenta proporcionalmente.
  2. Reação mais exotérmica. Use um valor mais negativo para deltaH. Isso representa uma reação que libera energia.
  3. Reação endotérmica. Troque a entalpia para um valor positivo. Isso representa uma reação que absorve energia.
  4. Mudança na proporção. Troque o coefBpara 4. Observe que mais produto é formado para a mesma quantidade de reagente.

O script mostra que uma equação química balanceada permite prever quanto reagente é consumido, quanto produto é formado, e quanta energia é liberada ou absorvida no processo.


FAZENDO APARECER

Agora organizemos as ideias.

3.1 Estequiometria: quantificando a transformação

A estequiometria estuda as relações quantitativas entre reagentes e produtos. A partir de uma equação balanceada, podemos determinar quanto de reagente é necessário, quanto de produto será formado, e qual reagente limita a reação. Ou seja, a reação ocorre em proporções fixas.

3.2 Termoquímica: entendendo a energia

A termoquímica estuda o calor envolvido nas reações químicas. Se exotérmica (ou exergônica, de “energia”), o calor é liberado; se endotérmica (ou endergônica), a reação absorve energia. A grandeza central envolvida é a variação de entalpia (\(\Delta\)H).

Desse modo, toda reação possui, simultaneamente, uma proporção de matéria e uma variação de energia associada. Dobrar a quantidade de reagente resultará no dobro da energia envolvida. Reduzir a reação à metade resultará na redução da energia total. Considerando a quantidade de material envolvida na reação como n:

\[ \Delta H_{\text{total}} = n \cdot \Delta H_{\text{reação}} \tag{3.5}\]

Onde:

\(\Delta\)H_total é a energia total liberada ou absorvida pela quantidade que reagiu; n é a quantidade de matéria que efetivamente reagiu, em mol; *\(\Delta\)_reação* é a variação de entalpia por mol de reação, definida no script como:

\[ \Delta H_{\text{reação}} = -50 \ \text{kJ/mol} \tag{3.6}\]

A relação de proporcionalidade entre matéria e energia envolvidas numa reação química é conhecida por Lei de Hess. Por essa regra a energia é conservada na reação:

\[ \Delta H_{\text{reação}} = \sum \Delta H_{\text{produtos}} - \sum \Delta H_{\text{reagentes}} \]

Onde o símbolo $\Sigma$ representa a somatória de elementos envolvidos. Usando a relação de entalpias de formação:

\[ \Delta H_{\text{reação}} = \sum n_p \Delta H_f^\circ(\text{produtos})- \sum n_r \Delta H_f^\circ(\text{reagentes}) \]

Onde n_p e n_r são os coeficientes estequiométricos dos produtos e reagentes (mols de cada que reagem).


VOLTA PRO MUNDO

Volte às situações iniciais. Observe que combustível queimando sugere energia liberada, que gelo derretendo indica energia absorvida, e que comprimido efervescente reagindo sugere matéria e energia juntos. Agora conseguimos interpretar melhor que a quantidade determina quanto reage, e que a energia determina como o sistema troca calor. Mas se é assim, então:

O que explica melhor cada situação: quantidade ou energia?

Traduzindo em perguntinhas menores:

  • é possível liberar muita energia com pouca matéria ?
  • é possível ter muita matéria reagindo com pouca energia ?
  • como identificar o reagente limitante em uma situação real (aquele que, se faltar, não tem reação) ?

Para responder esses a questionamentos, experimente o próximo app de JSPlotly.

Figura 3.3: Aplicativo para estudo estequiométrico e energético da formação de amônia: quando estequiometria e termoquímica caminham juntas. Clique neste LINK para abrir em nova aba.

Agite antes de usar

Nesse segundo objeto interativo, você passa a trabalhar com um sistema químico mais completo e realista, onde é possível escolher diferentes reações químicas e variar a quantidade do reagente principal. E também pode observar tanto o produto formado e a energia envolvida, quanto o reagente limitante. Para isso:

  1. Utilize o menu suspenso para escolher a reação química.
  2. Use a barra deslizante (slider) para variar a quantidade do reagente principal.

Observe como o sistema responde a cada alteração para a quantidade de produto formado, a energia total liberada ou absorvida, qual reagente está limitando a reação, e se variações num reagente continuam tendo efeito no sistema.

O script simula a reação de formação da amônia:

\[ N_2 + 3H_2 \rightarrow 2NH_3 \tag{3.7}\]

Ele permite variar a quantidade inicial de N\(_2\), mantendo H\(_2\) fixo. Com isso, você pode observar qual reagente limita a reação, quanto NH\(_3\) é formado, quanta energia é liberada, e como matéria e energia se transformam juntas.

A equação química balanceada informa a proporção da reação:

\[ 1 \text{ mol de } N_2 + 3 \text{ mols de } H_2 \rightarrow 2 \text{ mols de } NH_3 \tag{3.8}\]

Isso significa que, para cada 1 mol de N\(_2\), são necessários 3 mols de H\(_2\). Então, se um dos reagentes acaba antes, ele se torna o reagente limitante. Para experimentar essa situação, use o slider Quantidade de N2 (mol). Ao aumentar N\(_2\), observe:

  • quando N\(_2\) é o limitante;
  • quando H\(_2\) passa a limitar a reação;
  • quanto NH\(_3\) é formado;
  • como a energia total muda.

Observe que a quantidade de H\(_2\) é fixa no código (const H2_fixo):

\[ n_{H_2} = 12 \text{ mol} \tag{3.9}\]

Como a reação exige 3 mols de H\(_2\) para cada 1 mol de N\(_2\), o H\(_2\) permite no máximo o valor abaixo de “mols de reação”:

\[ \frac{12}{3} = 4 \tag{3.10}\]

Isso significa que, quando há mais de 4 mols de N\(_2\), o H\(_2\) passa a ser o limitante.

O script calcula o avanço possível da reação (\(\xi\)) a partir de cada reagente:

\[ \xi_{N_2} = \frac{n_{N_2}}{1} \tag{3.11}\]

\[ \xi_{H_2} = \frac{n_{H_2}}{3} \tag{3.12}\]

O avanço real é o menor deles:

\[ \xi = \min(\xi_{N_2}, \xi_{H_2}) \tag{3.13}\]

Depois, o script calcula o produto formado:

\[ n_{NH_3} = 2\xi \tag{3.14}\]

E a energia total:

\[ E = \xi \cdot \Delta H \tag{3.15}\]

Nesse modelo, a energia da reação é dada por:

\[ \Delta H = -92 \ \text{kJ} \tag{3.16}\]

Como o valor é negativo, a reação é exotérmica, ou seja, libera energia. Quanto maior o avanço da reação, maior a energia liberada.

Dessa forma, é possível alguns cenários interessantes com o aplicativo da Figura 3.3:

  1. Pouco \(N_2\). Use valores pequenos, como 1, 2 ou 3 mol, e observe que N\(_2\) limita a reação.
  2. Mistura estequiométrica. Use 4 mol de N\(_2\). Nesse caso:

\[ 4N_2 + 12H_2 \]

Estão exatamente na proporção da reação.

  1. Excesso de N\(_2\). Use valores maiores que 4 mol de N\(_2\), e observe que H\(_2\) passa a limitar a reação. Mesmo aumentando N\(_2\), o NH\(_3\) formado não aumenta mais.

Tente também responder as perguntas que seguem.

  • aumentar o reagente principal sempre aumenta o produto ?
  • o que acontece quando outro reagente passa a limitar o sistema ?
  • duas reações diferentes mas com quantidades semelhantes liberam a mesma energia ?
  • por que algumas reações são muito mais energéticas que outras ?
  • por que adicionar mais reagente não altera o resultado final quando se passa do ponto de saturação desse ?
  • por que a energia deixa de aumentar quando esgota-se o reagente limitante ?

E como um todo, veja que não basta ter muito reagente. É preciso ter os reagentes na proporção correta, já que a reação só avança até onde o reagente limitante permite.


E SE…

Algumas considerações sobre o app da Figura 3.3 valem a pena uma abstração da “caixa pensante”, sobre:

  • E se aumentarmos N\(_2\) mas mantivermos H\(_2\) fixo?

  • E se passarmos do ponto estequiométrico ?

  • E se o reagente em excesso não for consumido ?

  • E se a energia liberada parar de aumentar mesmo com mais N\(_2\) ?

  • E se quisermos produzir mais NH\(_3\)… devemos aumentar N\(_2\) , H\(_2\), ou ambos ?

Agora…que tal integrar tudo isso acima com um conceito visto na Seção 2.3, o tempo da reação ?! Para isso, experimente mais um JSPlotly.

Figura 3.4: JSPlotly para integração de estequiometria (quanto reage), termoquímica (quanta energia está envolvida) e cinética (quão rápido ocorre). Clique neste LINK e abra-o em nova aba.

Nesse simulador, você pode explorar uma transformação química para amônia ou metano envolvendo três arestas simultâneas: quanto reage, quanta energia está envolvida, e quão rápido o sistema evolui na presença de um catalisador.

Agite antes de usar

Escolha um modo reacional e utilize o slider para variar a quantidade do reagente principal. Observe as quantidades finais (painel esquerdo), a energia acumulada ao longo do tempo (painel direito), o reagente limitante, a energia total e a rapidez da transformação.

O código traz os coeficientes da reação para se trabalhar: coefA: 1, coefB: 3, e coefP: 2. Esses coeficientes representam a equação química balanceada:

\[ A + 3B \rightarrow 2P \]{#ea-A3B}

No exemplo da amônia:

\[ N_2 + 3H_2 \rightarrow 2NH_3 \tag{3.17}\]

Eles determinam a proporção entre reagentes e a quantidade de produto formado. A quantidade disponível de reagente B é dada por B__fixo, identificando-o como reagente limitante. A relação fica então:

\[ \xi = \min\left(\frac{n_A}{coefA}, \frac{n_B}{coefB}\right) \tag{3.18}\]

Esse é o “coração” do modelo. Ele determina quanto a reação pode avançar, e conecta estequiometria com termoquímica.

A constante cinética k controla a velocidade da reação:

k: 0.85,

Assim, a evolução temporal da reação é modelada por:

\[ f(t) = 1 - e^{-kt} \tag{3.19}\]

Isso significa que quando k é pequeno a reação é lenta, e quando k é grande a reação fica rápida. Nesse sentido, o catalisador aumenta o valor de k.

No código, essa evolução da reação no tempo é dada por:

fracao = 1 - Math.exp(-k * tempo);

Em síntese, cada parâmetro do código representa uma ideia física:

  • coeficientes \(\rightarrow\) proporção
  • quantidade \(\rightarrow\) limite da reação
  • deltaH \(\rightarrow\) energia
  • k \(\rightarrow\) tempo da transformação

Se quiser explorar alguns cenários para esse último app, seguem algumas sugestões.

  1. Crescimento controlado pelo reagente limitante. Enquanto um reagente limita o sistema, aumentar sua quantidade aumenta produto e energia.
  2. O excesso deixa de importar. Quando outro reagente passa a limitar, adicionar mais do primeiro não altera o resultado final.
  3. Catalisador. O catalisador acelera o processo, mas não altera o resultado final (quantidade).
  4. Comparação entre reações. Duas reações com quantidades semelhantes podem liberar energias muito diferentes.
  5. Intensidade energética. Pequenas quantidades de material podem gerar grandes quantidades de energia, dependendo da reação.

MESMO PADRÃO, OUTROS MUNDOS

O tema descrito ao longo do capítulo encontra aplicação prática em contextos bem diversos, como no uso de combustíveis e o funcionamento de motores, no metabolismo energético das células vivas, em diversos processos industriais, e nas “calorias” liberadas pelos alimentos ou consumidas pelo corpo em atividade física. Em todos eles, matéria e energia estão intimamente conectadas.


POR DENTRO DA FERRAMENTA

Entre os 3 scripts desse capítulo, o que permite trabalhar com proporção de matéria e energia da Figura 3.2 possui uma estrutura que pode ser aplicada a diversos sistemas químicos. Olhando mais panoramicamente para o script, pode-se sugerir que seu pseudocódigo envolve algumas etapas simples, como:

1. definir a equação química;
2. informar quantidades iniciais;
3. identificar o reagente limitante;
4. calcular o produto formado;
5. calcular a energia total;
6. acompanhar a evolução no tempo.

No código do JSPlotly a proporção química aparece aqui:

const B_formado = (coefB / coefA) * A_inicial;

A energia total aparece aqui:

const energia = A_inicial * deltaH;

E o gráfico é gerado variando a quantidade de (A) que reage:

for (let i = 0; i <= A_inicial; i += 0.5)